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02 de julho de 2005

______Sempre me perguntei porque as montanhas, particularmente as mais altas, exercem um fascínio em nós, humanos... Às vezes penso no que motiva muitos a deixar a tranqüilidade do lar e seguir para lugares exóticos ou de difícil acesso, simplesmente para alcançar algum objetivo, muitas vezes sem sentido algum. Muitas pessoas no mundo devem fazer a mesma pergunta... Até que surja uma resposta cientificamente comprovada, o que pode justificar isso é uma vontade de se superar e o gosto por aventuras.
______Senti no momento do convite para subir o Pico dos Marins, uma insegurança, que me fez pensar em explanar inúmeras desculpas para justificar uma recusa; nesse exato momento simplesmente aceitei o objetivo porque não são todos que conseguem incluir no seu histórico, uma caminhada inusitada como essa. Pensei em sair da situação de “sonhador” para “realizador”. Neste caso não faz a mínima diferença em nossas vidas subir ou não os Marins, como qualquer outro exemplo parecido, simplesmente o fato de dizer que fui e consegui atingir mais um objetivo de minha vontade, faz justificar tudo, porque muitos vão continuar deixando os feitos nos sonhos ou até mesmo nem ligar para isso.
______Consegui construir esse pensamento ao olhar um altímetro, mostrando que eu estava a 2390 metros e fazendo o cálculo mental de quanto esforço ainda teria que dispensar para alcançar os 2427 metros do ponto mais alto do Pico dos Marins. Eu estava observando uma parede de pedra bem à minha frente, completamente sozinho, somente escutando o barulho do vento rápido e frio a minha volta. Eu acabara de me distanciar do grupo atrás porque não queria parar para descansar há poucos metros do final para não desanimar, mas o grupo que estava à minha frente também não aparecia. Nesse momento me dei conta que poderia ter seguido um caminho errado. Olhei para o chão e reparei que a pedra onde estava não possuía marcas de desgaste. Olhei em volta e vi que estava a uns 20 metros do caminho certo. Voltei um trecho e segui adiante até ver de frente o Vale do Paraíba inteiro na minha visão de horizonte.
______A caminhada ao Pico dos Marins para o nosso grupo demorou 4 horas de subida, num ritmo considerado normal, mesmo vendo muitos grupos subindo com certa velocidade para garantirem um lugar para acampar no alto da montanha. Já na subida, fomos surpreendidos com muitas pessoas com o mesmo objetivo. No ponto mais alto espaços para barracas possuem certa limitação, muitos estavam ficando preocupados com a possibilidade de não encontrar lugar para a "estadia". Do grupo, eu Marcelo e Wanderson não iríamos acampar, mas o Jeferson, o Laurentino, o Vinicius e o Arnaldo estavam levando material para passar a noite por lá.
______Saímos de Cruzeiro às 5:30 da manhã para nos encontrar e tomar um café em Piquete. A subida de carro foi feita até o morro do Careca pelo caminho de Wenceslau Brás, enfrentamos algumas raspadas no fundo do carro, mas o acesso é possível pela estrada de chão batido. Vale salientar que o caminho pode ser feito com carros de passeios mas existem algumas subidas que exigem um pouco do carro.
______O estacionamento pode ser feito no rancho do Sr. Afonso há 1530 metros de altitude, mas anda-se no mínimo mais 1,5 km a mais a pé para se chegar no morro do Careca. Preferimos seguir mais adiante e deixar o carro no próprio Careca, neste local curiosamente foram colocadas algumas placas avisando que podem ocorrer assaltos aos carros parados ali, obviamente com um intuito dos moradores da região que cobram o estacionamento, mas para quem quiser não arriscar o melhor é deixar o carro no rancho. Chegamos às oito e meia da manhã no “morro do Careca” e a altitude é 1800 m.
______Apertamos a mochila e seguimos trilha adentro, em direção ao primeiro trecho da caminhada onde já começa com uma “desmotivante” subida. Já sabíamos que uma das maiores subidas começa logo no início da caminhada, o que nos motiva é escutar gritos de conquista dos grupos de pessoas que já chagaram mais alto.
______A trilha foi demarcada e planilhada por profissionais de turismo e historiadores de Piquete. Foram colocadas placas em pontos estratégicos para proporcionar um passeio mais interessante para aventureiros que freqüentam a região. Outro ponto de referência são os totens que mostram o caminho a ser seguido; esses totens são pedras pequenas colocadas uma em cima da outra, distanciadas nos limites da visão do caminho. Existem também pontos, traços e setas amarelas pintadas no caminho, mas vale lembrar que o acompanhamento de um guia é imprescindível para uma tentativa.
______A segunda dificuldade da subida além do cansaço é a falta de água. Como ambiente de altitudes não possuem muita vegetação e rios, é necessário administrar a água disponível a tiracolo. O primeiro ponto de água é uma fenda aberta na pedra com baixa vazão que, é melhor ser usada em caso de emergência devido à incerteza da qualidade. O fato de estar isolada das cidades não é fator de qualidade, muitos acampamentos próximos podem contaminar o leito rapidamente. O segundo ponto já é bastante abundante e trata-se da nascente do ribeirão Passa Quatro, mas uma placa colocada do lado da margem do pequeno rio alerta que os freqüentes acampamentos culminaram na contaminação com coliformes. A presença desse tipo de contaminação praticamente torna a água imprópria para consumo. Sorte que alguém teve a iniciativa de analisar a água e colocar uma placa no local...
______O trecho da subida final pode ser classificado como uma “escalaminhada”, existem locais bastante inclinados que provocam uma maior atenção do caminhante. Esses trechos normalmente são curtos, mas com certeza faz terminar a caminhada para quem tem medo de altura ou quem não está disposto a enfrentar um pequeno frio na barriga ao olhar para trás. Esses trechos não requerem muita técnica nem cordas, mas é necessário escalar com as mãos algumas pedras e fendas para continuar galgando a altitude.
______O topo é o momento de duas emoções: a conquista e o fim do sofrimento da subida. Ao chegar no alto, o sentimento de alívio de não existir mais subidas é extremamente gratificante. Somente estando lá para perceber.
______Ao largar a mochila senti um frio nas costas, era óbvio o suor preso entre as costas e a mochila, estava retido no pano da camiseta e isso trocaria mais rapidamente o calor. Uma troca de blusa foi obrigatória.
______O dia não estava muito claro. As observações das cidades somente podiam ser feitas entre as aberturas das nuvens. Era possível perceber a localização da maioria das cidades vizinhas no fundo do vale do Paraíba. Aparecida estava muito distante e não pudemos vê-la pela densidade muito alta da umidade no ar. Já Cruzeiro, Piquete, Lorena, Guaratinguetá, Cachoeira Paulista estavam bastante nítidas.
______No topo chegaram aproximadamente 40 pessoas, mas nem todos acampariam. Essas pessoas eram de São José dos Campos, Lorena, Sul de Minas, Cruzeiro, etc. Vários caminhantes com o mesmo propósito: aproveitar a melhor época para se visitar as montanhas altas da Serra da Mantiqueira, por que as chances de chuva são muito menores.
______O vento estava frio e ficar exposto por muito tempo com certeza me traria uma gripe, então como o corpo já estava começando a esfriar devido à parada para descanso, todos estavam colocando blusas de frio e toucas na cabeça.
______Um detalhe interessante é que conseguimos falar com nossas casas pelos celulares e avisar que estávamos bem. Mas é bom ressaltar que somente celulares da empresa VIVO receberam bem os sinais para completarem as ligações.
______Ao ficarmos observando a vista, o Laurentino mostrou as placas colocadas pela fundação de Piquete que mostra a direção das cidades, mas infelizmente a maioria das placas que estava no topo já havia sido tombada pelo vento forte e constante. Ele reparou que no vale está ocorrendo muita plantação de eucalipto para utilização em fabricação de celulose e papel. A primeira vista isso parece uma solução ecologicamente interessante pelo fato de estar ocorrendo um reflorestamento, principalmente por ser sustentável quando se imagina que se pode replantar diversas vezes. Mas o problema é que muitos fazendeiros estão arrendando suas terras pelo dinheiro ofertado causando com isso uma substituição gradativa da mata nativa, ecologicamente incorreto.
______O pico é registrado como 2422 metros de altitude e meu aparelho registrou 2427 que está dentro da precisão de 5 metros do barômetro.
______Após registrar a altitude máxima subindo na pedra mais alta do pico, começamos a nos preparar para descer. Eu e o Wanderson nos despedimos do pessoal que ficariam para acampar e às 15 horas da tarde iniciamos a descida. Encontramos dois grupos ainda subindo para acampar.
______A descida estava calculada para ser completada em 3 horas, com isso alcançaríamos o carro ainda com a luz do dia.
______Observando o Sul de Minas verifiquei a vastidão do local onde estávamos. Lembrei do fato mais importante que tirou do anonimato público o Pico dos Marins:
______Em junho de 1985, o escoteiro Marco Aurélio Simon, na época com 15 anos, estava junto com mais quatro escoteiros e seu guia, tentando uma investida ao cume. Um dos companheiros torceu o pé e o seu guia mandou Marco Aurélio voltar para buscar socorro. A partir desse momento Marco nunca mais foi visto. Na época foram feitas várias busca na região em busca do menino desaparecido. Guias da região juntamente com a polícia procuram exaustivamente por 28 dias o garoto, mas foi em vão. Até este momento, 20 anos depois o desaparecimento de Marco ainda é um mistério. Muitos mitos foram criados em volta de seu desaparecimento. Lembro-me bem porque nessa época do desaparecimento, porque muitas pessoas de Lorena e região se disponibilizaram para ajudar na busca. Dizem que as buscas foram tão precisas que muitos aventureiros puderam rever objetos perdidos de antigas investidas, mas o garoto continuou desaparecido.
______Descíamos o pico com muita gente junto, ocorreram em alguns momentos alguns congestionamentos na trilha.
______Eu particularmente desaconselho qualquer tentativa de descida noturna ou em horário avançado, porque a referência são as localizações dos “totens” e as placas à distância, visão totalmente prejudicada à noite.
______A descida sobrecarrega um pouco a perna por estarmos nos esforçando para frear o corpo.
______Atingimos o Morro do Careca ás 18:30 (final da tarde) e encontramos mais uma turma que iria acampar ali e subir no outro dia.
______O meu carro estava com algumas marcas de pássaros na porta e lembrei-me do pássaro de penugem amarela que “adorou” o espelho retrovisor, ainda de manhã. Essa espécie nos acompanhou na subida praticamente até a segunda água. Eu acredito que eles devem seguir os caminhantes porque já se acostumaram a ganhar sobras de biscoitos das pessoas.
______Na estrada, ao passar novamente pelo Rancho, decidi não voltar com o carro pelo mesmo caminho da vinda, e sim descer pelo caminho do Bairro dos Marins, principalmente para conhecê-lo.
______O caminho que desce do Rancho “Seu Afonso” para Piquete passando pelo bairro dos Marins possui mais fazendas e algumas casas, mas também não é muito conservada. Alguns trechos de barreiras quase estão impedindo a passagem, mas ainda é possível passar com um carro de passeio. A estrada parece uma opção melhor em relação ao caminho por Wenceslau Brás. O asfalto começa no Bairro dos Marins e vai até o encontro com a estrada Lorena-Itajubá.
______Antes de chegarmos no bairro dos Marins o dia anoiteceu e nossos amigos campistas já deveriam estar preparando alguma coisa para jantar, com certeza após terem assistido o por do sol lá de cima.
______O motivo de ir a lugares como esse não é motivado pelo simples fato de poder dizer orgulhosamente que já se foi a algum lugar diferenciado, ou que por esforço físico extremo conseguiu completar o feito, mas somente pelo orgulho de olhar para uma foto e dizer: “Não precisei pegar essa foto com ninguém, fui lá para clicá-las”.


Marcelo França

Resumo
Ponto _________________________Altitudes ____________Distância

Rancho Seu Afonso __________________ 1536 m
Morro do careca _____________________1800 m __________________0 m
1o mirante __________________________1884 m ________________433 m
2o mirante __________________________2000 m ________________892 m
3o mirante __________________________2050 m _______________1,14 km
1o maciço __________________________2057 m _______________ 1,32 km
Água 01 ____________________________2053 m ______________ 1,45 km
2º maciço __________________________ 2098 m ______________ 1,67 km
4o mirante __________________________2207 m_______________ 2,16 km
Saída para Itaguaré __________________ 2217 m _______________2,75 km
Nascente Ribeirão Passa Quatro ________ 2230 m _______________2,92 km
Pico dos Marins ______________________2427 m _______________3,95 km

Tempo de subida 4 horas
Tempo de descida 3 horas

Distância de trevo de entrada de Piquete ao careca
Via Wenceslau Brás 39,0 km
Via Bairro dos Marins 24,7 km

Distância do Rancho Seu Afonso até o Careca
Via estrada 3,0 km
Via Trilha 1,6 km

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Pico dos Marins - Uma caminhada nas alturas da Mantiqueira