FOTOS:

 

07, 08, 09 e 10 de Setembro de 2000

Primeiro Dia -Chegada até a sede do Parque Nacional da Bocaina

_____Estava combinado há mais de um mês a caminhada para a travessia da Trilha do Ouro no feriado da independência de quatro dias. Saímos bem cedo, por volta das 6:40 da manhã em direção a São José do Barreiro. No meu carro estavam: O meu pai, Alípio, Jeferson e Washington. O meu pai estava indo conosco para retornar com o carro e curtir um pouco a viagem. Pena não poder fazer a trilha conosco...
_____O carro estava baixo na traseira, por causa das mochilas que pesavam muito e praticamente não cabiam no porta malas. Saímos da Dutra na entrada para Queluz e seguimos em direção a São José do Barreiro, passando por Areias.
_____Em S.J. do Barreiro seguimos em direção ao centro da cidade, por onde começa o caminho de terra que leva ao Parque Nacional da Bocaina. A distância do centro até a entrada do parque é de 27 km, cheia de buracos e pedras. O carro batia bastante no chão e nas pedras por estar baixo. Existem muitas subidas e ótimos visuais da serra. No meio do caminho encontramos um lamaçal que cobria a estrada toda. Depois de alguns segundos para escolhermos qual o lado certo para atravessar, escolhemos o lado errado e ficamos atolados. Foi à primeira “atolada histórica” do meu carro. E lá fomos nós para frente do carro, empurrá-lo e arrastá-lo. Quando já tínhamos arrastado uns 2 metros em direção ao piso firme, apareceu uma Toyota com uma turma de Vitória, que nos ajudou a puxar o carro.
_____Paramos na sede e lá nos encontramos outras turmas que também estavam começando a caminhada. Acertamos os detalhes com o guarda florestal, sobre cópias das identificações que são obrigatórias e preenchemos duas folhas que deveriam conter os dados de cada pessoa que entrasse no parque: Nome, RG, CIC, Endereço, Telefone e Profissão. Deve se observar que para entrar no parque é obrigatório ligar para o IBAMA (0x12 577-1225), pedir permissão para atravessar a Trilha do Ouro e mandar uma cópia desses dados, que citei, por fax. Isso deve ser feito com pelo menos dez dias de antecedência, mas como conversei muito com o guarda no telefone um dia antes de sairmos, deixou que passássemos, simplesmente deixando as cópias com o guarda na entrada do parque. É bom evitar problemas.

_____Início da Trilha

_____Os primeiros passos são em uma estrada de chão feita para dar acesso às fazendas da região dentro do parque, normalmente freqüentadas por caminhonetes e Jeeps. Esse caminho está aberto até bem próximo da Cachoeira do Veado, mas possui alguns trechos onde algumas árvores caíram e impediam a passagem de carros.
_____Após alguns minutos de caminhada, à esquerda aparece à trilha que dá acesso à cachoeira de Santo Isidro. O lago formado pela queda é um ótimo convite a um banho. Ali já dava para se ter uma noção de como seriam os três próximos dias com tantas belezas naturais.
_____Como estávamos no começo da caminhada ficamos uns dez minutos e voltamos para a estrada. Mais adiante entramos em uma trilha à direita onde, existe o acesso a Cachoeira dos Mochileiros. Nessa trilha a vegetação é quase que totalmente coberta por folhas finas, secas e amareladas dos pinheiros, uma folha longa e pontiaguda, que se misturava com os pinheiros tombados e outras folhas verdes. Na cachoeira estavam o Leandro e o Rafael, de São Paulo, almoçando um miojo com molho de tomate, conversamos com eles brevemente
_____Existiam trechos da mata envolvidos em uma grande queimada, observamos que grandes vales estavam inteiramente negros.
_____Escutamos o barulho de outra cachoeira no lado esquerdo da estrada, mas não dispúnhamos mais de muito tempo e ainda tínhamos muito a andar.
_____A primeira parada para lancharmos foi no caminho da Cachoeira das Posses, onde muitas pessoas estavam acampadas. Lá existe uma casa abandonada, com suas paredes totalmente riscadas; ali estavam marcados os nomes e datas das pessoas que tiveram a paciência de procurar e encontrar um lugar em branco para escrever naquele emaranhado de nomes e rabiscos. A Cachoeira das Posses é uma queda d’agua em uma pedra arredondada muito grande que faz a cachoeira se dividir em duas, dando a impressão que quando o volume de água aumenta ela se torna somente uma queda.
_____Depois do lanche no caminho adiante apareceu um trecho de subidas intermináveis, por sorte o tempo estava nublado, não fazendo muito calor, tornando a subida menos “martirizante”. Na bifurcação de acesso a uma pousada, foi quando os dois rapazes de São Paulo nos alcançaram e continuamos caminhando juntos. Na parte mais alta da estrada, dá para se ter uma visão do tamanho do Vale da Bocaina, mas essa visão durou pouco, a vista foi tomada por uma neblina que passou do nosso lado tampando a nossa visão; enxergávamos somente a estrada e no máximo uns dez metros adiante.
_____Após a neblina logo avistamos uma fazenda que seria o lugar onde iríamos acampar. Chegamos mais ou menos as 18:30hs e já tinha muitas barracas. Essa fazenda normalmente oferece banho quente, café da manhã e banheiro a um preço pequeno, mas dessa vez só pagamos o camping, R$ 2,00 por pessoa, o chuveiro quente não estava funcionando, porque o gerador estava quebrado.
_____Já que não tinha outro jeito, peguei uma roupa e uma toalha e fui na direção de um riozinho, que eu vi na entrada da fazenda, nessa hora começaram a me chamar de “Foca”, por ser louco de tomar um banho naquela hora com aquele frio. Quem me acompanhou foi o Jeferson e depois chegou o Leandro de SP. A água estava tão gelada, que eu conseguia ficar no máximo uns 10 segundos com o pé dentro do rio, era necessário entrar para se molhar inteiro, sair para se ensaboar, entrar de novo, jogar uma água e sair correndo para se enxugar. Depois disso você fica até de bermuda perto de todo mundo de moletom! O banho é uma sensação horrível, mas são essas coisas que tornam as viagens mais emocionantes.
_____Montamos a barraca e fizemos a nossa primeira “janta/almoço”. Conhecemos uma turma de Vitória, que como nós fizeram uma fogueira, para disputar a altura da chama com a nossa. Estava ali uma turma do rio que tinha um tocador de gaita e um grupo de escoteiros. A neblina desceu à noite deixando a temperatura cair para próximo dos 10 graus ainda às 22:00hs, depois de muitas risadas e capuccinos na beira da fogueira, me dei conta que tinha esquecido de folhas para escrever essas linhas que estão escritas aqui. Usei, debaixo de muitas risadas, folhas de papel higiênico.Depois dessa fomos dormir.
_____Na noite passei um pouco de frio por causa do meu saco de dormir, que não é preparado para a baixa temperatura da madrugada.

Segundo Dia – Caminhada até a Cachoeira do Veado

_____Acordamos e ainda dava pra ver gotas de orvalho por cima da grama, arrumamos todo o equipamento e desmontamos as barracas. As turmas que acamparam ali estavam saindo uma a uma.
Nesse segundo dia não, passamos por muitas fazendas da região, a fazenda Azul e Branca e a fazenda Central. Alguns atalhos e trechos da estrada ainda conservam o calçamento original de pedra, mas prejudicados pelas chuvas e pelas erosões. A estrada começa a se estreitar, mas ainda é possível passar com carro. A visão do vale é incrível, consegue-se ver muito além das montanhas e ter uma noção de quanto andamos e ainda brincar com ecos. Os trechos de mata queimada se estendiam até aqui; passamos por uma igrejinha feita na lateral do caminho.
_____As paradas para descansar devem ser curtas e de preferência longe das fazendas porque alguns trechos possuem muitos carrapatos. Adiante vimos várias pessoas cavalgando e crianças curtindo o final de semana na fazenda.
_____Neste trecho começa a aparecer um pouco da mata atlântica, com o seu verde mais forte e seu cheiro característico da umidade.
_____Avistamos uma bifurcação que leva à Fazenda do Sr. Salvador, que conforme indicava a placa, vendia cerveja gelada. O Sr. Salvador faz almoço, se você quiser ele mata um frango ou um peru e prepara na hora. Estávamos à uma hora mais ou menos da Cachoeira do Veado. As pontes nesse trecho são feitas de troncos de árvores finas tombadas e amarradas de duas em duas com um corrimão cambaleante, para se equilibrar.
_____Avistamos uma ponte à nossa esquerda, ali seria a passagem para o outro lado do rio para continuarmos a trilha no outro dia. Depois de 20 minutos chegamos na clareira do nosso acampamento do segundo dia, junto com praticamente todos que estavam no primeiro acampamento. Chegamos lá pelas 13:00 hs, montamos o equipamento com pressa e fomos conhecer a Cachoeira.
_____A Cachoeira do Veado é extraordinária, para se ver a parte mais alta, usa-se quase todo o movimento do pescoço para o alto. A Cachoeira é dividida em três partes: uma primeira queda, que não dá para ver de onde estávamos, somente por uma outra trilha, quem sabe da próxima vez; uma segunda queda que é muito alta, sem exageros deve beirar uns 100 metros de altura; a água quando cai na pedra levanta uma nuvem de pequenas gotas de água, que de onde estávamos, dava a impressão de uma chuva fina e constante; por ultimo, existe a terceira queda, que não e muito alta.
_____O estrondo da água batendo na pedra é inesquecível para quem o escutou a noite inteira no acampamento. Da clareira onde estavam as barracas, dava para ver o topo da segunda queda
_____Ao anoitecer eu fui ao rio para tomar mais um banho e senti que a água estava mais fria do que o dia anterior. Preparamos uma fogueira, para nos esquentar e preparar uma boa porção de “miojos”, repartimos a janta com o Sr. Paulo e o Juliano, que foram apelidados de irmãos “Mario e Luige”. Ficamos na fogueira até umas dez horas e enjoamos de tanto conversar porque chegamos cedo no acampamento.
_____A noite foi menos fria do que a do dia anterior, mas o som e a visão da cachoeira valeram todo o esforço ate ali.

Terceiro dia – Calçamento original e chegada a Manbucaba

_____Ao acordarmos preparamos um capuccino e começamos a desmontar tudo. Checamos se estava tudo limpo e saímos as 9:00hs.
_____Voltamos no caminho um pouco para passar para o outro lado do rio, tinha uma turma acampada na passagem.
_____A trilha no terceiro dia é a mais bonita, praticamente toda com o calçamento original, feita pelos escravos com muitas pedras e musgos, tornando-a muito escorregadia. Sua coloração é uma mistura de verde da mata com cinza-roxeado das pedras e marrom do barro. Esse último tornou a caminhada ainda mais divertida, pelos vários escorregões, que são inevitáveis. Eu mesmo levei um e caí de costas, não conseguia me levantar por causa do peso da mochila, me senti uma “tartaruga ao contrário”. Também pisei em um atoleiro e afundei o pé até o calcanhar no barro e quando fui dar o próximo passo, eu o fiz com a meia, porque o tênis o atoleiro literalmente engoliu.
_____O visual é extraordinário, o caminho se estreita bastante. Existem trechos que você passa quase raspando a mochila nas duas laterais. Alguns trechos realmente são perigosos, como um atoleiro bem na lateral de uma ribanceira deixando um espaço para passar, menor do que a sua própria largura. As chuvas estão acabando com a estrada. Ali ainda existem alguns moradores das fazendas que sobem com alimentos no lombo de burros trazidos de Manbucaba.
_____A cada 20 minutos andados encontrava-se uma entrada para alguma corredeira do rio e com muita gente parada descansando. Várias pessoas vinham de Manbucada atrás das corredeiras do rio: era um sinal de que a trilha estava perto do fim e já começava a dar saudade de tanto verde. Passamos por várias árvores caídas e lindos visuais de natureza. Eu levava uma maquina fotográfica compacta que já estava chegando ao final do segundo filme de 36 poses.
_____Existe uma cachoeira ao longe que se consegue ver um fino traço de água caindo de uma grande altura. Entramos em vários trechos do rio que formavam corredeiras, principalmente para descansar e observar tamanha diversidade de cores e ambientes.
_____O final da trilha é em uma ponte chamada de Ponte Suspensa, onde paramos para tomamos um banho de rio gelado, aliás ali todo mundo entrou na água, mesmo os “fedidinhos” que não tomaram banho nesses dois últimos dias. Chegamos por volta das 13:00 hs e começamos a tentar alugar uma das Vans que estavam ali para levar as turmas contratadas ate a vila, mas foi em vão. Terminamos de comer alguns biscoitos que sobraram na mochila e “pé na estrada”. Ali me dei conta tinha perdido o meu chapéu que estava pendurado na mochila, mas era tarde.
_____O caminho até a vila de Mambucaba é um caminho normal de acesso às fazendas da região litorânea, de chão batido e com várias pontes feitas de concreto sem acabamento. Foi o trecho mais martirizante, porque passavam vários carros, vans e caminhonetes, lotadas com as pessoas que contrataram-nas. Tínhamos 17 quilômetros pela frente e realmente o caminho ainda continua com a beleza da antiga trilha, cheio de trechos de pequenas cachoeiras, para se visitar. Paramos em algumas fazendas p/ tentar “chorar” uma carona, mas ninguém ia fazer isso para 6 “marmanjos fedidos”.
_____Andamos mais ou menos umas 2 horas até que uma caminhonete que estava subindo para buscar uma turma que chegava da trilha, falou para esperarmos que na volta ela também nos pegaria; esperamos numa ponte, uns 20 minutos, até que ela voltou. Fizemos o restante do caminho até Mambucaba de caminhonete, pagamos R$ 2,00 por pessoa.
_____Logo pegamos um ônibus circular no bairro para chegar até a beira da estrada Rio-Santos, porque lá sempre tem Vans que fazem á linha de hora em hora até Paraty.
_____Chegamos em Paraty à noite, lá pelas 19:00 e fomos direto para o camping do CCB andando mais um pouco. Montamos mais uma vez as e ficamos relembrando a trilha. Paraty estava na época da festa do Divino, havia muita agitação na cidade, estávamos escutando o som da festa enquanto saboreávamos a conquista da trilha do Ouro.

Marcelo França

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Travessia de São José do Barreiro à Manbucaba pelos caminhos do ouro.